Morando em um barco na Irlanda

Depois de quase 10 meses morando a bordo na Irlanda, meu tempo aqui está chegando ao fim. Não, Neverland não está a venda. Tudo isso tem sido parte de um plano maior que teve início antes de comprar o barco. Toda pesquisa, economias, treinamento, a compra do barco, morando a bordo, conhecendo, consertando, fazendo melhorias e velejando o máximo possível para adquirir o conhecimento necessário para velejar rumo ao pôr do sol.

Experiência que até então me fez menos preguiçoso (um pouco menos). O barco precisa de atenção constante e eu tenho que fazer praticamente tudo por conta própria. Amigos tem ajudado bastante na verdade.

Primeiramente o básico

Se você não sabe trocar uma lâmpada, um barco não é pra você…

Viver num barco é bem diferente de viver em uma casa (Capitão Óbvio reportando ao comando!). Sério, se mudar pra um lugar pequeno faz você rever tudo que possui. Não existe espaço pra enfiar tanta parafernalha! Pra início de conversa eu tive que vender ou doar ou jogar fora um monte de coisa desde TV e vídeo game até roupas e outras tralhas que eu acumulava achando que iria precisar um dia. Sendo realista, eu jamais iria precisar. Ninguém precisa. Nós humanos temos alguma tara em acumular tralha. Desapegue!

Espaço comum

Tenho 1,87 de altura e só existe um lugar do barco que eu consigo ficar reto em pé. Minha cabeça já achou todos os limites superiores do barco por diversas vezes e até hoje ainda bato a testa andando pelo barco. Você tem que se abaixar e dobrar e se mover sobre as coisas o tempo todo. Quando tem mais gente no barco todos tem que se mover ao mesmo tempo. Acho que todo mundo sonha com um barco maior e mais espaçoso até cair na realidade que não tem dinheiro pra comprar e muito menos manter. Tem que se comprometer alguma coisa.

Espaço de armazenamento

Espaço em geral em um barco costuma ser bastante limitado e mesmo ele sendo todo projetado pra guardar coisas sempre falta lugar. As coisas precisam ser dobráveis, retráteis, desmontáveis ou simplesmente pequenas pra caber em lugares apertados. Esqueça um guarda roupa arrumadinho, uma sapateira ou aquela área de serviço nos fundos. Ao menos o casco do barco é frio e ideal pra guardar cerveja!

Conforto

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Banheiro

Mesmo o barco possuindo um banheiro, deve-se evitar e usar o vestiário da marina que é excelente por sinal. O chuveiro é melhor que todas as casas que morei na Irlanda. Temperatura e pressão ajustáveis. Perfeição. Certeza que vou sentir falta quando estiver no mar.

“Esgoto” no mar é um assunto controverso e alguns países tem regulamentações diferentes com relação a isso. A única concordância que conheço é de que não se dá descarga dentro de marinas. Sugiro buscar no google sobre o assunto se estiver realmente interessado. Você vai se surpreender com o que se considera aceitável jogar no mar. Plástico é inaceitável por exemplo.

Vento

Venta muito na Irlanda, especialmente do Outono à Primavera (3/4 do ano). O barco balança o dia e noite inteiros as vezes. As cordas amarradas no deck esticam e vibram no barco e os defensores também. As adriças precisam ser amarradas longe do mastro para não baterem constantemente. Nem todo mundo faz isso o que torna a marina uma orquestra tocando a sinfonia dos infernos (vento assoviando alto incluso).

Eu só consigo dormir umas 3 horas em condições como essa e passo o dia destruído.

Frio

Durante o inverno eu precisei de um aquecedor. O mais eficiente e econômico (mais seguro também pra um barco) que encontrei foi um Radiador a óleo de 650W. Ele dá conta de uma cabine sozinho de porta fechada. Nunca use aqueles aquecedores baratinhos que parecem um ventilador, eles consomem uma energia absurda! Eletricidade na marina é mais caro que em uma casa e durante o inverno eu gastava mais ou menos uns 35 euros por mês só pra manter o aquecedor a noite praticamente. Outras fontes de consumo eram a chaleira elétrica pra fazer café e cozinhar, geladeira ligada, mini desumidificador (essencial), notebook, carregadores, luzes internas e a bomba d’água que eram usados eventualmente. Durante o verão eu gastava somente uns 7 euros por mês.

Úmido e mofado

Também durante o inverno a umidade aumenta terrivelmente. O teto e as janelas condensam e pingam água. Deixar o hatch parcialmente aberto melhora bastante mas fica mais frio. A madeira debaixo do colchão também condensa e molha tudo por baixo. Eu precisava levantar o colchao diariamente pra secar! O mini desumidificador ajuda mas não faz milagre. O ideal seria um dos grandes pro barco inteiro.

Também encontrei lugares mofados eventualmente e tive que limpar. Não muito saudável.

Cozinhar

Não há muito espaço na cozinha (galley) e cozinhar pra mais de 3 pessoas é um pesadêlo. Só pra mim é de boa 🙂

Têm um fogão de duas bocas e um grill. Nunca nem usei o grill na real. Eu gastava uns 27 euros a cada 2-3 mêses com a recarga de gás (Campingaz 907).

Também há uma geladeira pequena sem freezer que é a coisa mais próxima de luxo que eu tenho no barco. Ela e Guinness gelada.

Consertando as coisas

Compre um barco e você terá trabalho todo dia pro resto da sua vida…

Você precisa ser um faz-tudo. As coisas quebram, privada entope, bateria precisa ser trocada, encanamento precisa de atenção, os eletrônicos param de funcionar… Essa lista é infinita, de verdade. Obviamente todos nós temos nossas limitações com relação a manutenção, mas o básico de um barco vai muito além de pregar um prego na parede ou até trocar a fechadura de uma porta. Isso é molezinha comparado a manejar selantes, juntas de vedação, fibra de vidro, epoxy, canos de entrada e saída no casco, um motor a diesel, um motor a gasolina, dispositivos NMEA, equipamento no topo do mastro, putz… Eu já estudava sobre manutenção meses antes de comprar o barco e até me inscrevi num curso de manutenção de motores de barco. Esse foi o livro de manutenção de barcos que comprei. Bem detalhado com figuras e também ensina a inspecionar um barco antes de comprar. Essencial ter a bordo.

Internet

O WIFI da marina é horroroso e minha melhor conexão era o hotspot 4G do celular. Funciona muito bem pra navegar na internet e até assistir vídeos e séries mas não se compara a uma banda larga cabeada. Saudade de jogos online e ping baixo =/.

Tempo livre e paz

Especialmente durante os finais de semana, quando eu não estava trabalhando no barco ou relaxando em Dalkey Island com as focas, eu normamente tinha bastante tempo livre e usava ele pra ler e aprender o máximo possível sobre coisas como preservação de comida sem freezer, pescar com linha, arpão, prender a respiração por mais tempo durante mergulho, mais manutenção e velejo em geral.

Nada melhor que um café, um livro e um dia de preguiça a bordo.

Vale a pena?

Em resumo, morar em uma marina na Irlanda é possível e você acaba se acostumando com a parte ruim com o tempo. O verão é bom, dá pra aproveitar a costa e até atravessar o mar Irlandês para o País de Gales ou a Ilha de Man. O inverno é definitivamente o pior, bastante frio e não dá vontade nenhuma de velejar, porém é ótimo pra ajeitar o barco. Vale a pena? Se o plano é zarpar de vez depois de uma temporada ou se não se incomoda com desconforto extremo então sim… Dias de sol fazem valer a pena talvez.

E agora? Qual o plano?

E agora? Agora é hora de mais uma aventura. Aventura dos sonhos na verdade! Seis meses velejando da Irlanda até o Mediterrâneo, passando pelo País de Gales, Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Gibraltar, Ilhas Baleares (Ibiza, Mallorca, Menorca), Sardinia, Corsica e finalmente Itália. Quase 3000 milhas nauticas que é o equivalente a atravessar o Atlântico!

Pulando de ilha em ilha e seguindo o pôr do sol, conectando com pessoas e natureza, experienciando novas culturas e lugares que só se chega de barco, bebendo até cair com o locais e colecionando memórias pro resto da vida… Não sou de citações clichê de forma alguma, mas essa merece seu lugar aqui:

Daqui a vinte anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez. Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas.

Explore. Sonhe. Descubra .”

– H. Jackson Brown, mãe

Sinta-se convidado a seguir ou se juntar à viagem! Veja o mapa interativo abaixo e siga o nosso Instagram @neverlandexpedition.

4 respostas para “Morando em um barco na Irlanda”

  1. Chu, que foda ver você realizando esse sonho. A única parte ruim é que não vou junto hahahaha boa sorte, quem sabe não nos encontramos num desses portos né? :*

  2. Show de bola!!! Quando que essa aventura irá começar? Vou acompanhar pelo insta! Sucesso e boa viagem !!!!

  3. A tempo procuro alguém que iniciou a vida a vela na europa do zero e casualmente apareceu seu blog.
    Tenho o mesmo plano arquitetado em minha mente , consegui fazer minha cidadania polonesa que seria o primeiro passo,mas tenho muitas dúvidas que poderias me ajudar.
    Qual seria o custo de marina na Irlanda?
    Dá pra viver com o salário mínimo ?
    Enfim muitas dúvidas…..moro en Santa Catarina e vez ou outra velejo com amigos da Avesal em Floripa…mas no Brasil é complicado….bons ventos….estarei acompanhando a saga pelos mares do norte…

  4. Achei você na internet pesquisando como morar em um veleiro na irlanda , gostei muito das suas postagens .um dia pretendo fazer isso também. boa sorte e boa viagem

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